Nestes últimos tempos, tenho tido medo de ter menos de trinta anos e estar a perder a capacidade de sonhar. Como se sonhar fosse, aliás, condição possível apenas para os mais jovens. É a triste realidade em que nos fazem crer... No outro dia, sentada no autocarro, a ver Lisboa e as pessoas que, levam as suas vidas apesar de todas as incertezas e tumultos, todos os golpes e feridas, senti uma vontade imensa de voltar a acreditar, de voltar a ter esperança num futuro melhor, num país melhor.
Estou cansada, e julgo que estamos todos, do discurso negativo e pessimista, das promessas e dos avisos, das crises e das finanças, dos cortes e das descidas, dos estudos e das perspectivas, do desemprego e da pobreza, das manifestações e da direita e da esquerda.
Estou cansada de ouvir falar mal do meu país, estou cansada de ter vontade de dizer mal deste Portugal que me acolheu, que me viu nascer, crescer e formar-me, que me deu expectativas e me fez sonhar, deste Portugal de onde muitos fogem.
É preciso que as pessoas se unam, que as pessoas procurem soluções, que se estenda a mão e se alimente a esperança, não é preciso manifestações e pancada, revoluções embrionárias que estão prometidas e nunca acontecem. É preciso revolucionar as mentes, as vontades, a moral do povo. Há situações que nos ultrapassam, e toda esta conjuntura não se altera com eleições para uns ou para outros, estamos demasiado presos a um mundo interdependente, num sistema complexo que é difícil de contrariar.
Vamos bater-nos pela mudança possível, que está nas nossas mãos, à porta da nossa casa, ao espelho, do outro lado do telefone. Vamos fazer aquilo que pudermos, de cabeça erguida, ainda que de orgulho ferido, e vamos acreditar. Vamos ajudar-nos mutuamente, quem pudermos, como conseguirmos e for possível. Vamos tentar melhorar os serviços e o respeito pelo ser humano, dando o nosso contributo e reclamando pelas vias próprias, vamos escrever, ensinar, cuidar, pintar, projectar, compor, proteger, dançar, investigar, cantar, estudar, apanhar da terra.
Em cada pequena acção pode estar um pequeno passo para melhorar o que sentimos, o que os outros sentem, a situação. Vamos agir pensado no colectivo, os pobres, ricos e os muito ricos, os ignorantes e os magnificamente cultos, os fracos e os fortes e os que ainda não sabem o que são.
Vamos unir-nos, por todos aqueles que elevam o nome do país, do nosso país, por todos aqueles que diariamente se batem contra lutas tão maiores do que as nossas, por aqueles que não tiveram a sorte de nascer aqui e enfrentam guerras há anos, fome, doença, catástrofes.
Vamos ser gratos pelo que temos, por muito pequeno que seja, vamos querer mais, merecer mais, ajudar mais.
Se aqui ficar, quero deixar aos que vêm depois de mim um país que acredita, que luta até ao fim, que combate a doença até não conseguir mais e deixa o exemplo atrás de si.
Se não formos nós, aqui e agora a fazer isso, quem o fará quando o que restar de Portugal for o som das ondas a morrer na areia?